segunda-feira, 11 de março de 2019

Presidente Bolsonaro publica áudios devastadores sobre ‘intenções ocultas’ de jornalista do Estadão


Imagem: Produção Ilustrativa / Folha Política
O presidente Jair Bolsonaro divulgou, em suas redes sociais, áudios de uma jornalista do jornal O Estado de S. Paulo, com as seguintes observações:

“- Constança Rezende, do jornal "O Estado de São Paulo" diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. 

- Ela é filha de Chico Otavio, profissional do jornal "O Globo" e "TV Globo."

- A Globo e o Estadão querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos”.


Ouça: 


Nos áudios postados pelo presidente, a jornalista diz que se dedica ao caso do senador Flávio Bolsonaro porque “o caso pode comprometer… está arruinando Bolsonaro”. Em seguida, Rezende diz ter medo de que não aconteça nada após a investigação do senador. Ela afirma: “É uma grande frustração. Para mim. Porque eu acho que é um caso de impeachment”. Questionada sobre a origem dos documentos do Coaf, a jornalista relata que os documentos são oficiais mas não são públicos, e que ela tem acesso a eles porque aqui, os jornalistas recebem esses documentos das suas fontes, e afirma não ter qualquer dúvida de que os documentos são oficiais. Rezende também afirma que o Coaf já tinha o relatório há um ano, e que só teriam começado a trabalhar no caso após as eleições. 

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O jornal O Estado de S. Paulo confirmou que a voz nos áudios divulgados pelo presidente é da jornalista Constança Rezende, em uma conversa telefônica com um estudante. Segundo o jornal, “As frases da gravação foram retiradas de uma conversa que ela teve em 23 de janeiro com uma pessoa que se apresentou como Alex MacAllister, suposto estudante interessado em fazer um estudo comparativo entre Donald Trump e Jair Bolsonaro”. 

Segundo o jornal, seria falso atribuir a Constança Rezende a “intenção” de arruinar o governo ou o presidente, porque ela não declarou isso textualmente. O jornal afirma: “Na gravação do diálogo, porém, Constança não fala em ‘intenção’ de arruinar o governo ou o presidente. A conversa, em inglês, tem frases truncadas e com pausas. Apenas trechos selecionados foram divulgados. Em determinado momento, a repórter avalia que ‘o caso pode comprometer’ e ‘está arruinando Bolsonaro’, mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido”. De fato, a jornalista, com dificuldades no uso da língua inglesa, não chega a formar muitas frases completas e vários trechos são incompreensíveis. Entretanto, o jornalista francês que publicou os áudios aponta que ela se mostra bastante entusiasmada ao dizer que suas reportagens têm potencial para prejudicar o presidente. 

Os áudios foram publicados originalmente pelo jornalista francês Jawad Rhalib, no site Mediapart, em um artigo em que questiona os rumos da imprensa. No artigo, Rhalib afirma que, analisando a militância entre jornalistas, queria buscar os fatos por trás da cobertura sobre o novo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. Para isso, utilizou como fonte um estudante de uma universidade britânica, que analisou jornalistas anti-Bolsonaro. O jornalista relata: “nos interessamos, no começo, por alguns jornalistas anti-Bolsonaro, claro, e depois, pouco a pouco, a lista foi se reduzindo e se concentrou nos artigos de uma jornalista que era virulenta a respeito de Bolsonaro. Essa jornalista do Estado de São Paulo se chama Constança Rezende, a primeira jornalista a publicar artigos sobre Flávio Bolsonaro, o filho de Jair Bolsonaro. Fizemos uma sondagem e depois, por sorte, no âmbito das pesquisas de meu estudante, certificadas pela universidade, a jornalista aceitou uma entrevista telefônica, que nós gravamos para compreender suas motivações. Ao final, saímos com um registro que desenha uma imagem catastrófica das mídias locais e das instituições governamentais”. 

Segundo Rhalib, “A conversa gravada entre meu ‘estudante’ e Constança Rezende, do Estado de São Paulo, revela que a verdadeira motivação por trás da cobertura negativa da imprensa é “arruinar” o presidente Jair Bolsonaro e provocar sua destituição. Esse estudo de caso sobre a forma como as mídias brasileiras partidárias tratam a informação revela que elas não se interessam pelos fatos reais, mas utilizam simplesmente histórias negativas, frequentemente inventadas, sobre a família do presidente Bolsonaro, que, diga-se de passagem, foi eleito democraticamente”. 

O jornalista francês enfatiza que a jornalista utilizou dados sigilosos obtidos ilegalmente e que escolheu o momento de sua divulgação para prejudicar o presidente. E afirma: “Sejamos claros: não sou partidário de Bolsonaro, mas acho que utilizar o poder da imprensa para atacar um Presidente através de seu filho é, de toda forma, bastante distorcido, e inaceitável para o jornalista que eu sou”. 

Ouça a íntegra do texto publicado por Jawal Rhalib, traduzido do francês: 

Que discordemos dos políticos, quaisquer que sejam suas opiniões, suas atitudes, suas posições, suas convicções… que a opinião pública condene esses políticos em praça pública por crimes contra a humanidade, não é menos importante que nosso rigor jornalístico deve permanecer a regra fundamental de nosso ofício, apesar da ferocidade ‘animal’ de alguns regimes políticos que podemos ter em frente, com pedidos de destituição, de prisão, de guilhotina, lançados nas ruas de Washington, Budapeste, Roma, Viena, Brasília… parecidos com aqueles da caça às bruxas na Europa (1560-1580), que queimava as mulheres e seu suposto poder enquanto invocava Deus pai todo-poderoso. Minha especialidade de jornalista documentarista sempre me incitou ao rigor. Essa foi minha primeira preocupação antes de cada investigação, cada realização de um documentário… é, aliás, a regra entre milhares de meus colegas em todo o mundo. Lançar luz sobre um evento, vê-lo e fazer vê-lo, explicá-lo ao público com absoluta honestidade, objetividade e exatidão… Quem, onde, por quê, como? Se, nos documentários criativos, a investigação fica a serviço da criação, com um propósito e um posicionamento a favor de uma causa, na reportagem, as “news”, a imprensa escrita, a tomada de posição, a tomada de partido, a militância, não são parte do campo de ação do jornalista. A militância não é bem-vinda nessa parte do nosso ofício, a não ser, claro, quando se trata de colaborar “abertamente” com um partido ou um homem político, por exemplo. As mídias têm uma influência sobre as pessoas e sobre a opinião pública e não há nenhum lugar para a propaganda partidária, a manipulação, que, infelizmente, nos privaria de nossa liberdade nos submeteria a este ou aquele partido político, movimento, influência… As mídias podem nos entupir de informação a seu bel-prazer, nos induzir ao erro. 
Desde sua eleição à presidência do Brasil, Bolsonaro intriga, incomoda, interpela. Face à invasão midiática, na condição de jornalista, eu me fiz a seguinte pergunta: E se eu revirasse, de perto, o que se escreve sobre ele, e tentasse separar o verdadeiro e o falso? E se eu verificasse os fatos? “fact checking”. Encarreguei, então, uma de minhas fontes de trabalhar comigo sobre esse assunto, de fazer uma pesquisa sobre as reações das mídias em relação ao novo líder brasileiro. Caía bem que o trabalho de conclusão de curso da minha fonte, um estudante de uma famosa universidade britânica, fosse sobre essa temática. A chegada de Bolsonaro é uma enorme reviravolta na paisagem política brasileira, que conheceu uma elite corrompida. 
Assim, nos interessamos, no começo, por alguns jornalistas anti-Bolsonaro, claro, e depois, pouco a pouco, a lista foi se reduzindo e se concentrou nos artigos de uma jornalista que era virulenta a respeito de Bolsonaro. Essa jornalista do Estado de São Paulo se chama Constança Rezende, a primeira jornalista a publicar artigos sobre Flávio Bolsonaro, o filho de Jair Bolsonaro. Fizemos uma sondagem e depois, por sorte, no âmbito das pesquisas de meu estudante, certificadas pela universidade, a jornalista aceitou uma entrevista telefônica, que nós gravamos para compreender suas motivações. Ao final, saímos com um registro que desenha uma imagem catastrófica das mídias locais e das instituições governamentais. Desde dezembro de 2018, Flávio Bolsonaro - então deputado estadual do Rio de Janeiro, atualmente senador, e filho do presidente Jair Bolsonaro - foi o centro de vários artigos polêmicos nas mídias brasileiras. Segundo a cobertura inicial, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) do Brasil, publicou um relatório de pagamentos suspeitos de 1,2 milhões de reais, entre 2016 e 2017, a Fabricio Jose Carlos de Queiroz, o motorista de Flávio Bolsonaro. Muito rapidamente, as reportagens nas mídias foram seguidas pela abertura de um procedimento contra Flávio Bolsonaro.
A conversa gravada entre meu “estudante” e Constança Rezende, do Estado de São Paulo, revela que a verdadeira motivação por trás da cobertura negativa da imprensa é “arruinar” o presidente Jair Bolsonaro e provocar sua destituição. Esse estudo de caso sobre a forma como as mídias brasileiras partidárias tratam a informação revela que elas não se interessam pelos fatos reais, mas utilizam simplesmente histórias negativas, frequentemente inventadas, sobre a família do presidente Bolsonaro, que, diga-se de passagem, foi eleito democraticamente. 
Constança Rezende tem a posse de documentos que não são públicos, que lhe foram divulgados ilegalmente pelo COAF, e publicou seu primeiro artigo contra Flávio Bolsonaro com base em documentos redigidos pelo COAF há mais de um ano. Não obstante, eles só foram divulgados em dezembro de 2018, logo após as eleições gerais de outubro, e antes da posse de Jair Bolsonaro em janeiro de 2019. A escolha do momento de transmitir os documentos do COAF aos jornalistas brasileiros levanta questões sérias. Em especial: quem se beneficia dessa divulgação? O mesmo se aplica às motivações do COAF? 
Sejamos claros: não sou partidário de Bolsonaro, mas acho que utilizar o poder da imprensa para atacar um Presidente através de seu filho é, de toda forma, bastante distorcido, e inaceitável para o jornalista que eu sou. 

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Correio do Poder
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