quarta-feira, 26 de setembro de 2018

'No Supremo, você tem gabinete distribuindo senha para soltar corrupto', diz ministro Luís Barroso


Imagem: Carlos Humberto / STF
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o ministro Luís Roberto Barroso falou do papel central do combate à corrupção no avanço da democracia brasileira. Barroso disse que a democracia vem avançando mas ainda tem "pontos baixos". Ao esclarecer esse ponto, explicou que a corrupção "foi produto de um pacto oligárquico celebrado entre parte da classe política, parte da classe empresarial e parte da burocracia estatal. Precisamos substituí-lo por um pacto de integridade". Elencando os obstáculos encontrados no combate à corrupção, afirmou que "no Supremo, você tem gabinete distribuindo senha para soltar corrupto".

Leia o trecho da entrevista: 

Ao olhar o filme da democracia brasileira, é preciso reconhecer que ele é bom. Agora, há os pontos baixos.

Quais seriam?
A corrupção que se verificou no Brasil não foi produto de falhas e fraquezas humanas. Foi uma corrupção estrutural, sistêmica e programada de arrecadação e de distribuição de recursos públicos com um nível de contágio muito impressionante.
A sociedade, felizmente, num determinado momento, começou a reagir. E deixou de aceitar o inaceitável.
A coisa mais importante que há no Brasil hoje é essa imensa demanda da sociedade por integridade, idealismo e patriotismo. É essa a energia que empurra a história e muda paradigmas.

Leia também: 

A corrupção foi produto de um pacto oligárquico celebrado entre parte da classe política, parte da classe empresarial e parte da burocracia estatal. Precisamos substituí-lo por um pacto de integridade.
Não tem sido um processo histórico fácil, em razão de três obstáculos: parte do pensamento progressista acha que os fins justificam os meios e que a corrupção é apenas uma nota de pé de página na história. Eu penso que eles estão errados.
Segundo obstáculo: boa parte das elites brasileiras acham que corrupção ruim é a dos adversários. Se for a dos companheiros de pôquer, de mesa e de salões, não tem muito problema.
O terceiro obstáculo são os próprios corruptos —os que não querem ser punidos, o que é um sentimento humano compreensível, e os que não querem ficar honestos nem daqui para a frente.
O nível de contágio da corrupção uniu essas pessoas numa aliança entre corruptos, elitistas e progressistas.
Eu não vou citar nomes porque não posso. Mas eu considero que esta é a última missão da nossa geração.
Nós derrotamos a ditadura, a hiperinflação, obtivemos vitórias expressivas contra a pobreza extrema. A nossa última missão é empurrar a corrupção para a margem da história. E depois nós podemos sair do caminho.
O Brasil é o 96º colocado no índice de percepção de corrupção da Transparência Internacional. Eu acordo todos os dias envergonhado com esse número.
A despeito disso, menos de 1% dos presos do sistema está lá por corrupção ou por crime de colarinho branco. Tem alguma coisa errada nisso.
E ainda assim, no Supremo, você tem gabinete distribuindo senha para soltar corrupto. Sem qualquer forma de direito e numa espécie de ação entre amigos.
Que gabinetes, ministro? 
(sorri e fica em silêncio)

O senhor não acha um risco o senhor falar de forma genérica? 
Tem gabinetes. [seguindo] Quando a Justiça desvia dos amigos do poder, ela legitima o discurso de que as punições são uma perseguição.

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Correio do Poder
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